O Teorema do Confronto
Nesta seção, iremos rever o que foi apresentado no vídeo Teorema do Confronto. O principal resultado que estudaremos nos fornece um meio de determinar o limite de uma função ``espremida’’ entre outras duas, que possuem limites iguais.
Exemplo 1
Calcular o limite , caso exista.
Observe que, para todo ,
Assim, fazendo
para todo , teremos
Observe que a função é limitada, assumindo valores no intervalo . Assim, , temos , e, portanto
Definindo, para todo ,
teremos, para ,
Vamos agora calcular, caso existam, os limites de e com tendendo a 0. Temos
Assim, e têm o mesmo limite 1 quando tende a 0.
Mas lembre-se de que para todo . Assim, a função terá seu gráfico compreendido entre os gráficos de e , como mostrado abaixo.
É razoável acreditarmos que
e, como , teremos
logo
Teorema do Confronto
O que nos pareceu intuitivo no exemplo anterior é garantido pelo Teorema que enunciamos abaixo.
Teorema 1
Sejam , e três funções definidas próximas de , mas que não precisam estar definidas em , isto é, definidas em , para algum . Se
para todo , e
então
Vamos entender o enunciado deste Teorema. Primeiro, temos três funções e tais que
para todo próximo a , mas não importando o que aconteça para . Na verdade, as funções nem precisam estar definidas em . Agora, suponha que as funções e tenham o mesmo limite quando tende a , isto é,
Isto significa que, perto de , as funções e estão ``espremendo’’ a função , fazendo com que ela tenha, também, o mesmo limite em , isto é,
No esboço que acabamos de apresentar, parece que temos , para todo . Isto não precisa acontecer para podermos chegar à conclusão do Teorema. Veja o esboço abaixo:
Neste esboço, claramente não é verdade que para todo . De fato, se nos afastarmos de , podemos ver que o valor de é menor que .
Porém, lembre-se de que, para limites, o importante é o que acontece perto do ponto onde estamos estudando o limite. Neste caso, se nos restringirmos a valores próximos a , como no esboço abaixo, a condição será satisfeita; observe:
Teremos, de acordo com o Teorema do Confronto,
Há um outro ponto que precisamos destacar. Você deve se lembrar de que, para a existência e para o cálculo do , o valor que é absolutamente irrelevante. Na verdade, este valor sequer precisa estar definido. Isto se aplica também ao Teorema do Confronto. Releia o enunciado e veja que fizemos questão de destacar que as funções precisam estar definidas perto de , mas não necessariamente em . Além disso, a condição também só foi exigida para todo perto de com . Se esta condição vale ou não vale em , é absolutamente irrelevante para a conclusão do Teorema. Observe o esboço abaixo:
Repare que temos todas as condições satisfeitas:
Portanto, pelo Teorema do Confronto,
Uma divertida (eu pelo menos acho divertida!) observação sobre o Teorema do Confronto é que ele também é bastante (mesmo!) conhecido como Teorema do Sanduíche. Este nome é muito sugestivo do que acontece, uma vez que temos as funções e ensanduichando a função . Observe, porém, que este sanduíche de funções deve ter sido comprimido em , a ponto de as fatias e encontrarem.
Outras versões do Teorema do Confronto
Considere a situação do esboço abaixo,
isto é, , e .
A mesma intuição que nos faz acreditar no Teorema do Confronto que apresentemos anteriormente também nos permite concluir que
Esta seria uma versão ``à esquerda’’ do Teorema do Confronto. Não temos a menor ideia do que acontece à direita de . Poderíamos até ter uma situação como abaixo:
Mas, se restringirmos nosso estudo ao que acontece à esquerda de , o limite estaria garantido.
Temos então a seguinte versão ``lateral’’ do Teorema:
Teorema 2
Sejam , e funções definidas para todo próximo à esquerda de , ou seja, para , para algum . Se
para todo , e
então
Fizemos questão de repetir, no enunciado do Teorema, que a desigualdade só precisa valer ``para todo próximo a com ’’. Isto porque, mais uma vez, só importa o que acontece perto e à esquerda de .
Analogamente, podemos enunciar uma versão ``à direita’’:
Teorema 3
Sejam , e funções definidas para todo próximo à direita de , ou seja, para , para algum . Se
para todo , e
então
O esboço abaixo ilustra bem o que este Teorema significa:
É fácil acreditarmos que, nas condições do Teorema anterior,
Poderíamos ter algo como a figura abaixo:
Repare que ainda assim, vale que . O que acontece à esquerda de não está sendo discutido nesta versão ``á direita’’ do Teorema.
Podemos ainda extrapolar as conclusões do Teorema do Confronto para o caso de limites no infinito. Vejamos um exemplo antes de enunciarmos mais verões do Teorema.
Exemplo 2
Calcular o limite , caso exista.
Inicialmente, veja que temos sempre
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Escolhendo um suficientemente grande, podemos garantir que . Assim, dividindo as desigualdades acima por , temos
(Precisamos garantir, de alguma forma, que pois, do contrário, ao dividir as desigualdades por , o sinal poderia se inverter... se lembra?)
Fazendo
temos então
para todo grande o suficiente. Além disso,
Vamos agora esboçar os gráficos de , e , apenas para tentar ilustrar um pouco a situação. O gráfico de está em azul, e os gráficos de e estão em verde e vermelho, respectivamente.
Observe o que acontece se nos concentramos em positivo e grande o suficiente (com ):
Nesta parte observada do esboço, e daqui para , vimos acima que
É fácil acreditar que o gráfico de será ``espremido’’ pelos de e , que estão se aproximando da reta (a assíntota horizontal). Com isso, teremos claramente
A intuição que utilizamos na solução do exemplo anterior é garantida pelo
Teorema 4
Sejam , e funções definidas para todo , onde é um número real grande o suficiente. Se
para , e
então
Uma versão equivalente pode ser definida para o caso em que :
Teorema 5
Sejam , e funções definidas para todo , onde é um número real negativo o suficiente. Se
para , e
então
Exemplo 3
Seja uma função definida em tal que, para ,
Calcule , se existir. Solução: Temos
e
Assim, como , temos pelo Teorema do Confronto,