O Teorema do Confronto

Nesta seção, iremos rever o que foi apresentado no vídeo Teorema do Confronto. O principal resultado que estudaremos nos fornece um meio de determinar o limite de uma função ``espremida’’ entre outras duas, que possuem limites iguais.

Exemplo 1

Calcular o limite limx0sen(x)+x3(1+cos(10x))x, caso exista.

Solução

Observe que, para todo x0,

sen(x)+x3(1+cos(10x))x=sen(x)x+x3(1+cos(10x))x=sen(x)x+x2(1+cos(10x))

Assim, fazendo

f(x)=sen(x)+x3(1+cos(10x))x,

para todo x0, teremos

f(x)=sen(x)x+x2(1+cos(10x)).

Observe que a função cos é limitada, assumindo valores no intervalo [1,1]. Assim, 1cos(10x)1, temos 01+cos(10x)2, e, portanto

sen(x)xf(x)sen(x)x+2x2.

Definindo, para todo x0,

g(x)=sen(x)x,

h(x)=sen(x)x+2x2,

teremos, para x0,

g(x)f(x)h(x).

Vamos agora calcular, caso existam, os limites de g e h com x tendendo a 0. Temos

limx0g(x)=limx0sen(x)x=1,

limx0h(x)=limx0(sen(x)x+2x2)=limx0sen(x)x+limx02x2=1+0=1.

Assim, g e h têm o mesmo limite 1 quando x tende a 0.

Mas lembre-se de que g(x)f(x)h(x) para todo x0. Assim, a função f terá seu gráfico compreendido entre os gráficos de g e h, como mostrado abaixo.

É razoável acreditarmos que

limx0g(x)limx0f(x)limx0h(x),

e, como limx0g(x)=limx0h(x)=1, teremos

1limx0f(x)1,

logo

limx0f(x)=1.

Teorema do Confronto

O que nos pareceu intuitivo no exemplo anterior é garantido pelo Teorema que enunciamos abaixo.

Teorema 1

Sejam f, g e h três funções definidas próximas de aR, mas que não precisam estar definidas em a, isto é, definidas em (ar,a)(a,a+r), para algum r>0. Se

g(x)f(x)h(x)

para todo x(ar,a)(a,a+r), e

limxag(x)=limxah(x)=L,

então

limxaf(x)=L.

Vamos entender o enunciado deste Teorema. Primeiro, temos três funções f,g e h tais que

g(x)f(x)h(x)

para todo x próximo a aR, mas não importando o que aconteça para x=a. Na verdade, as funções nem precisam estar definidas em x=a. Agora, suponha que as funções g e h tenham o mesmo limite L quando x tende a a, isto é,

limxag(x)=limxah(x)=L.

Isto significa que, perto de x=a, as funções g e h estão ``espremendo’’ a função f, fazendo com que ela tenha, também, o mesmo limite L em x=a, isto é,

limxaf(x)=L.

No esboço que acabamos de apresentar, parece que temos g(x)f(x)h(x), para todo xa. Isto não precisa acontecer para podermos chegar à conclusão do Teorema. Veja o esboço abaixo:

Neste esboço, claramente não é verdade que g(x)<f(x) para todo xR{a}. De fato, se nos afastarmos de x=a, podemos ver que o valor de f(x) é menor que g(x).
Porém, lembre-se de que, para limites, o importante é o que acontece perto do ponto onde estamos estudando o limite. Neste caso, se nos restringirmos a valores próximos a x=a, como no esboço abaixo, a condição g(x)f(x)h(x) será satisfeita; observe:

Teremos, de acordo com o Teorema do Confronto,

limxaf(x)=L.

Há um outro ponto que precisamos destacar. Você deve se lembrar de que, para a existência e para o cálculo do limxaf(x), o valor que f(a) é absolutamente irrelevante. Na verdade, este valor sequer precisa estar definido. Isto se aplica também ao Teorema do Confronto. Releia o enunciado e veja que fizemos questão de destacar que as funções precisam estar definidas perto de x=a, mas não necessariamente em x=a. Além disso, a condição g(x)f(x)h(x) também só foi exigida para todo x perto de a com xa. Se esta condição vale ou não vale em a, é absolutamente irrelevante para a conclusão do Teorema. Observe o esboço abaixo:

Repare que temos todas as condições satisfeitas:

{g(x)f(x)h(x),x próximo de a,xalimxag(x)=limxah(x)=L

Portanto, pelo Teorema do Confronto,

limxaf(x)=L.


Uma divertida (eu pelo menos acho divertida!) observação sobre o Teorema do Confronto é que ele também é bastante (mesmo!) conhecido como Teorema do Sanduíche. Este nome é muito sugestivo do que acontece, uma vez que temos as funções g e h ensanduichando a função f. Observe, porém, que este sanduíche de funções deve ter sido comprimido em x=a, a ponto de as fatias g e h encontrarem.

Outras versões do Teorema do Confronto

Considere a situação do esboço abaixo,

isto é, g(x)f(x)h(x),para todo x próximo de a, com x<a, e limxag(x)=limxah(x)=L.
A mesma intuição que nos faz acreditar no Teorema do Confronto que apresentemos anteriormente também nos permite concluir que

limxaf(x)=L.

Esta seria uma versão ``à esquerda’’ do Teorema do Confronto. Não temos a menor ideia do que acontece à direita de x=a. Poderíamos até ter uma situação como abaixo:

Mas, se restringirmos nosso estudo ao que acontece à esquerda de x=a, o limite limxaf(x)=L estaria garantido.
Temos então a seguinte versão ``lateral’’ do Teorema:

Teorema 2

Sejam f, g e h funções definidas para todo x próximo à esquerda de a, ou seja, para x(ar,a), para algum r>0. Se

g(x)f(x)h(x)

para todo x(ar,a), e

limxag(x)=limxah(x)=L,

então

limxaf(x)=L.

Fizemos questão de repetir, no enunciado do Teorema, que a desigualdade só precisa valer ``para todo x próximo a a com x<a’’. Isto porque, mais uma vez, só importa o que acontece perto e à esquerda de x=a.
Analogamente, podemos enunciar uma versão ``à direita’’:

Teorema 3

Sejam f, g e h funções definidas para todo x próximo à direita de a, ou seja, para x(a,a+r), para algum r>0. Se

g(x)f(x)h(x)

para todo x(a,a+r), e

limxa+g(x)=limxa+h(x)=L,

então

limxa+f(x)=L.

O esboço abaixo ilustra bem o que este Teorema significa:

É fácil acreditarmos que, nas condições do Teorema anterior,

limxa+f(x)=L.

Poderíamos ter algo como a figura abaixo:

Repare que ainda assim, vale que limxa+f(x)=L. O que acontece à esquerda de x=a não está sendo discutido nesta versão ``á direita’’ do Teorema.
Podemos ainda extrapolar as conclusões do Teorema do Confronto para o caso de limites no infinito. Vejamos um exemplo antes de enunciarmos mais verões do Teorema.

Exemplo 2

Calcular o limite limx+2x3+3x210x+2+sen(x)3x31, caso exista.

Solução

Inicialmente, veja que temos sempre

1sen(x)1,

logo

2x3+3x210x+12x3+3x210x+2+sen(x)2x3+3x210x+3.

Escolhendo um x suficientemente grande, podemos garantir que 3x31>0. Assim, dividindo as desigualdades acima por 3x31, temos

2x3+3x210x+13x312x3+3x210x+2+sen(x)3x312x3+3x210x+33x31.

(Precisamos garantir, de alguma forma, que 3x31>0 pois, do contrário, ao dividir as desigualdades por 3x31>0, o sinal poderia se inverter... se lembra?)
Fazendo

f(x)=2x3+3x210x+2+sen(x)3x31,

g(x)=2x3+3x210x+13x31,

h(x)=2x3+3x210x+33x31,

temos então

g(x)f(x)h(x)

para todo x grande o suficiente. Além disso,

limx+g(x)=limx+2x3+3x210x+13x31=23,

limx+h(x)=limx+2x3+3x210x+33x31=23.

Vamos agora esboçar os gráficos de f, g e h, apenas para tentar ilustrar um pouco a situação. O gráfico de f está em azul, e os gráficos de g e h estão em verde e vermelho, respectivamente.

Observe o que acontece se nos concentramos em x positivo e grande o suficiente (com 3x31>0):

Nesta parte observada do esboço, e daqui para x+, vimos acima que

g(x)f(x)h(x),

limx+g(x)=23,

limx+h(x)=23.

É fácil acreditar que o gráfico de f será ``espremido’’ pelos de g e h, que estão se aproximando da reta y=23 (a assíntota horizontal). Com isso, teremos claramente

limx+f(x)=23.

A intuição que utilizamos na solução do exemplo anterior é garantida pelo

Teorema 4

Sejam f, g e h funções definidas para todo x>K, onde K é um número real grande o suficiente. Se

g(x)f(x)h(x)

para x>K, e

limx+g(x)=limx+h(x)=L,

então

limx+f(x)=L.

Uma versão equivalente pode ser definida para o caso em que x:

Teorema 5

Sejam f, g e h funções definidas para todo x<K, onde K é um número real negativo o suficiente. Se

g(x)f(x)h(x)

para x<K, e

limxg(x)=limxh(x)=L,

então

limxf(x)=L.

Exemplo 3

Seja f uma função definida em R tal que, para x2,

x2+x+2f(x)x24x+2.

Calcule limx2f(x), se existir. Solução: Temos

limx2x2+x+2=(2)2+(2)+2=4

e

limx2x24x+2=limx2(x2)(x+2)x+2=limx2(x2)=4.

Assim, como x2+x+2f(x)x24x+2, temos pelo Teorema do Confronto,

limx2f(x)=4.