Continuidade

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Vimos no estudo sobre limites que o limite de algumas funções quando x tende a a coincide com a imagem da função no ponto a. Funções com esta propriedade são ditas contínuas em a. A ideia matemática de continuidade é a da própria palavra, ou seja, de um processo contínuo, sem quebras, que não possui mudanças abruptas.

Quando pensamos, por exemplo, em um valor aproximado para 3,9, logo vem à mente o valor 2, afinal, 3,9 está próximo de 4! Isso é verdade, pois a função raiz quadrada é contínua em seu domínio, se não o fosse, seu valor em 3,9 poderia estar bem ``longe'' de 2!

Exemplo 1

Considere a função definida por

f(x)={x2+1,se x0x3,se x>0.

Como limx0f(x)=limx0(x2+1)=1 e limx0+f(x)=limx0+x3=0, o limite limx0f(x) não existe. No gráfico da f, ao lado, isto representa que há um ``salto'' ou uma ``quebra'' no ponto x=0.

Exemplo 2

Considere a função definida por

f(x)={|x|,se x10,se x=1.

Sabemos que limx1f(x)=limx1|x|=1. Entretanto, como
f(1)=0, temos que limx1f(x)f(1). No gráfico da f, ao lado, isto representa que há um ``salto'' ou uma ``quebra'' no ponto x=1.

Definição de Continuidade

Definição 1

(Função contínua) Uma função f:XR é contínua em aX se limxaf(x)=f(a).

Observe que na definição de continuidade há três aspectos envolvidos:

Diremos que f:XR é descontínua em aX se f não for contínua em a, isso ocorre por dois motivos: o limite da função no ponto x=a não existe ou ele existe, mas é diferente de f(a). Diremos ainda que f é contínua em um conjunto AX se f for contínua em todo ponto aA.

No Exemplo 1, a função f é descontínua em 0 e contínua em R{0}. De fato, para todo a0, teremos limxaf(x)=limxa(x2+1)=a2+1=f(a) se a<0 e limxaf(x)=limxax3=a3=f(a) se a>0.

No Exemplo 2, a função f é descontínua em 1 e contínua em R{1}. De fato, para todo a1, teremos limxaf(x)=limxa|x|=|a|=f(a).

Se f é contínua em a, então f(x) está próximo de f(a), se x estiver suficientemente próximo de a. Isto é, f(x) tende a f(a) quando x tende a a. Geometricamente, o gráfico de uma função contínua em um ponto a não possui quebra em a. Quando uma função é contínua em um intervalo, seu gráfico pode ser traçado sem nenhuma quebra, isto é, ``sem tirar o lápis do papel''.

Se f é contínua em a, então f(x) está próximo de f(a), se x estiver suficientemente próximo de a. Isto é, f(x) tende a f(a) quando x tende a a. Geometricamente, o gráfico de uma função contínua em um ponto a não possui quebra em a. Quando uma função é contínua em um intervalo, seu gráfico pode ser traçado sem nenhuma quebra, isto é, ``sem tirar o lápis do papel''.

Pensando nos gráficos das funções trigonométricas, vemos que y=cos(x) e y=sen(x) são contínuas em todo ponto de R, já y=tan(x) e y=sec(x) são contínuas em todo ponto de seus domínios, ou seja, para xπ2+kπ e y=cotg(x) e y=cossec(x) são contínuas em xkπ. Outros exemplos de funções contínuas em todos os pontos de seus domínios são função modular, exponencial, logaritmo, raízes, polinômios e funções racionais.

Observação: Há uma pequena variação na forma como alguns autores definem e trabalham com o conceito de descontinuidade. Lembre-se de que nós definimos, alguns parágrafos acima, que a função ``f:XR é descontínua em aX se f não for contínua em a'', isto é, só definimos descontinuidade em pontos do domínio da função. Assim, por exemplo, com a nossa definição, não faz sentido falar que (e nem perguntar se) f(x)=1x1 ou f(x)=x21x1 são contínuas ou descontínuas em x=1, pelo simples fato de que x=1 não pertence ao domínio destas funções, que é R{1} em ambos os casos. Alguns autores, porém, definiriam que estas funções são descontínuas em x=1; no caso de f(x)=1x1, diriam ter uma descontinuidade infinita e, no caso de f(x)=x21x1, uma descontinuidade removível.

Exemplo 3

Vamos verificar a continuidade da função abaixo em x=1.

f(x)={x21x1,se x<1.cos(x1)+1,se x1.

Vamos então ver, pela definição, se f é contínua em x=1:

limx1f(x)=limx1x21x1=limx1(x1)(x+1)x1=limx1x+1=2, limx1+f(x)=limx1+(cos(x1)+1)=cos(11)+1=2, f(1)=cos(11)+1=2

Assim, como limx1f(x)=limx1+f(x)=f(1), temos que o limite de f existe em x=1 e este limite é igual a f(1). Com isso, f é contínua em x=1.

Exemplo 4

Vamos verificar a continuidade da função abaixo em x=2.

f(x)={x32x2x+2x2,se x<2.sec(x2)+1,se 2x<2+π/2.

Vejamos os limites laterais em x=2:

limx2+f(x)=limx2+sec(x2)+1=sec(0)+1=1cos(0)+1=2


limx2f(x)=limx2x32x2x+2x2=limx2(x21)(x2)x2=limx2x21=3


Como os limites laterais são distintos, não existe o limite da f quando x tende a 2, portanto a f não pode ser contínua em x=2.

Exemplo 5

Vamos verificar a continuidade da função abaixo em x=0 e x=1.

f(x)={sen(1x),se x<0.5,se 0x1.x1x,se x>1.

Vejamos primeiro os limites laterais quando x tende a 0:

limx0f(x)=limx0sen(1x),

mas esse limite não existe, pois o valor do seno fica oscilando entre -1 e 1 indefinidamente. Portanto, podemos afirmar que a f não é contínua em x=0.
Analisando agora quando x tende a 1:

limx1+f(x)=limx1+x1x=,

logo a f também não pode ser contínua em x=1, pois o limite não existe.

Exemplo 6

Vamos verificar se existe algum valor de b, tal que a função abaixo seja contínua em x=0.

f(x)={ex+1x2+1,se x<0.b,se x=0.2+x3sen(1x),se x>0.

Temos

limx0f(x)=limx0ex+1x2+1=e0+11=2, limx0+f(x)=limx0+2+x3sen(1x)=2+0=2,

pois pelo Teorema do Anulamento limx0x3sen(1x)=0.

f(0)=b

logo, para que limx0f(x)=limx0+f(x)=f(0), precisamos ter b=2.

Exemplo 7

Verificar se existe algum valor de b, tal que a função abaixo seja contínua em x=0.

f(x)={sen(|x|)x,se x<0b,se x=0ln(x+e),se x>0.

Temos

limx0f(x)=limx0sen(|x|)x=x<0limx0sen(x)x=o senoéímparlimx0sen(x)x=1, limx0+f(x)=limx0+ln(x+e)=ln(e)=1.

Como os limites laterais são diferentes, não existe limx0f(x). Assim, não existe nenhum valor real para b que torne a f contínua em x=0.

Dizemos que a f é contínua no intervalo fechado [a,b], quando o for em (a,b) e além disso limxa+f(x)=f(a) (continuidade à direita em a) e limxbf(x)=f(b) (continuidade à esquerda em b).

Observação: f(x) é contínua em x=a, quando para todo ϵ>0 dado, existir δ>0, tal que, se |xa|<δ, então |f(x)f(a)|<ϵ. Esta é a definição formal de continuidade, decorrente da definição formal de limite.

Teorema 1

Dadas duas funções, f e g, contínuas em a:

  1. A função soma f(x)+g(x) é contínua em a. (A soma de funções contínuas é contínua.)

  2. A função diferença f(x)g(x) é contínua em a. (A diferença de funções contínuas é contínua.)

  3. A função produto cf(x) é contínua em a, para todo cR. (O produto de uma função contínua por uma constante é contínua.)

  4. A função produto f(x)g(x) é contínua em a. (O produto de funções contínuas é contínua.)

  5. Se g(a)0, f(x)g(x) é contínua em a. (O quociente de funções contínuas é contínua, desde que o denominador não se anule.)

Esse resultado é bem conhecido. Sua demonstração decorre das propriedades análogas de limite.

Exemplo 8

A função f(x)=sen(x)x4+1 é contínua em R, pois sen(x) e x4+1 são contínuas em R e x4+10 para todo xR. Portanto, pelo Teorema 1, o quociente será uma função contínua em R.

Exemplo 9

A função f(x)=|x|cos(x)1x2 é contínua em R{1,1}. De fato, |x| e cos(x) são contínuas em R, logo pelo Teorema 1, |x|cos(x) também é. Além disso, 1x2 é contínua em R e x210 para todo xR{1,1}, portanto o quociente será uma função contínua em R{1,1}.

Exemplo 10

Determinar os valores de a e b reais para que a função f definida abaixo seja contínua em R:

f(x)={sen(x)|x|,se x<0ax+b,se 0x1ln(x),se x>1.

Para x<0, f(x)=sen(x)|x| é contínua. O mesmo acontece para x>1, onde f(x)=ln(x) e para 0<x<1, onde f(x) é a função afim ax+b, que é contínua independentemente do valor dos parâmetros a e b.

Assim, para que f seja contínua em R, só falta garantir que seja contínua em 0 e 1, ou seja, que limx0f(x)=f(0) e limx1f(x)=f(1).

limx0f(x)=limx0sen(x)|x|=x<0limx0sen(x)x=limx0sen(x)x=1.

Assim, teremos limx0+f(x)=a0+b=f(0)=limx0f(x)=1, logo b=1. Por outro lado,

limx1+f(x)=limx1+ln(x)=ln(1)=0.

Assim, teremos limx1f(x)=a1+b=b=1a1=f(1)=limx1+f(x)=0, logo a1=0, e então a=1.

Note que, como f(x) é polinomial para 0x1, temos também limx0+f(x)=f(0) e limx1f(x)=f(1).

O próximo Teorema nos diz que ``composta de funções contínuas é contínua''.

Teorema 2

Se g é contínua em x=a e f é contínua em x=g(a), então a função fg, dada por (fg)(x)=f(g(x)) é contínua em x=a.

Exemplo 11

A função definida por h(x)=sen(x2) é contínua em R, pois g(x)=x2 e f(x)=sen(x) são contínuas em R.

Exemplo 12

A função definida por F(x)=ln(1+cos(x)) é contínua em R{π+2kπ,kZ}. Sabemos que f(x)=ln(x) é contínua em seu domínio (0,+) e g(x)=1+cos(x) é contínua em R, com isso, f(g(x)) será contínua sempre que g(x) pertencer ao domínio de f, isto é, sempre que g(x)>0. Como cos(x)1, g(x) só estará fora de (0,+), que é o domínio de f, quando 1+cos(x)=0, logo cos(x)=1, ou seja, x=π+2kπ,kZ. Assim, o domínio de F=fg é R{π+2kπ,kZ}.